quinta-feira, 18 de outubro de 2012

A panaceia

"Fui!" e saí. Era esta a minha despedida. Apressada, voraz, seca e que não esperou por retorno.
Saía de casa com planos de compra que lutavam loucamente contra a verba disponível, fogo nas ventas, um óculos escuro na fuça e ideias que oscilavam entre raiva e tristeza... a resignação era o meio termo.

Muni-me do meu maço de cigarros antes de sair. Qualquer vício(ou projeto dele) é bom amigo em tempos que estes faltam. Comprei uma garrafa de vinho e a bebi no caminho até o ponto de ônibus. Caminho este, que a minha impaciência tornara maior, já que quanto mais o ônibus demorava, mais eu avançava em sua busca.

O vinho "cobrou o seu preço". Não veio a embriaguez, mas sim um mal estar único.
Uma fraca porém incômoda dor de cabeça, aliada a um crescente torpor, que me levou a sentar numa das elevações do piso do ônibus num estado de "semi-consciência".

Pensei que era a morte se avizinhando. Eu era cada vez menos dono de minhas ações e até um "teste vocal" foi feito ainda no ônibus, já que eu pensava estar perdendo a fala(Ação esta, que foi percebida por uma mulher que estava próxima a mim, e a mesma certamente atribuiu tal ato a algum estágio de loucura e este passou a ser um dos infindáveis itens que compõem a lista dos motivos pelos quais a maioria pensa que sou completamente pirado).

Chegando ao meu destino, água na cara e na garganta, a viagem continua. Ainda que eu estivesse bastante hesitante, me encontrava quase completamente consciente. Pus-me a caminhar. Enquanto caminhava, vi minha mente ser tomada por um turbilhão de ideias. As idas à cidade tem este efeito sobre mim... os grandes prédios, a intensa movimentação, pessoas desconhecidas que trafegam em passo acelerado... tudo me leva a pensar num número absurdo de coisas... todas elas claras e sólidas. Certamente a panaceia estava lá, presente em meus pensamentos, mas o pudor me impediu de fumar e assim que tentei registrar as ideias, as senti dissolvendo-se, mostrando que estas eram de uma solidez absolutamente falsa, tal qual a ideia "sólida" que tive antes de sair de casa(uma letra que fala sobre um homem que já não se suporta, que deseja rasgar a carne presente em seu rosto, por sentir asco pelo mesmo... sim, ser "eu", é algo péssimo).

Sem cigarros ou ideias, prossegui e dediquei-me ao meu mais novo "hobby"(fotografia), e ao avistar dois ângulos de uma paisagem, não pude evitar um "puta que pariu", seguido de um sorriso tão idiota quanto eu... minhas recentes atividades como "fotógrafo", tem me levado a ver belezas escondidas, coisas pequenas e comuns que tem dito muito a mim, ainda que eu não saiba o que está sendo dito... só está. Algumas coisas ditas são como a vida, simplesmente não fazem sentido algum... estas coisas, ao menos, tem conseguido me tornar alguém um pouco melhor, ainda que por alguns instantes.

Comprei o que era necessário e fiz o caminho de volta entre fotos, pensamentos, a garota bonita que passou
por mim(e que como todas as mulheres que passaram pela minha vida, não teve vontade alguma de permanecer por lá) e enquanto destinava a minha atenção às sacolas plásticas e à escrita deste texto, quase não notei o mundo que passava ao meu lado, além da janela do ônibus.

Retornei, também, tendo a certeza de que gastei mais do que gostaria e comprei menos do que era necessário.

Regressei ainda muito mal, mas, não tanto quanto na saída. Talvez fosse o tempo, tentando fechar feridas. Talvez estivesse recobrando a consciência de que "Se o que importa não importa, não dá nada ser irrelevante". We are who we are, isso é um fato, mas até que se acostume com quem você é... "Não dá nada ser irrelevante", outro fato, mas certamente, ser relevante é uma insignificância mais divertida. É isso, um dia eu me acostumo.


quarta-feira, 15 de agosto de 2012

As coisas na estante


Possivelmente influenciado por uma imagem visualizada ontem, acordei com esta analogia(de coisas dispostas em uma estante) "latejando" em minha mente, como se ela fosse dona de vida própria e precisasse de espaço... de liberdade, para seguir seu curso. Pois bem, está livre, agora, minha pequena. Avante!

Vim falar sobre a passagem de um ano. Ele não se fechou, é verdade, mas, veio a vontade, e vontades libertas e exercidas são quase sempre melhores que vontades contidas.

O "um ano" a que me refiro, tem como principais marcos, a criação deste blog e um acontecimento de foro pessoal, que veio a determinar negativamente os meses seguintes. Antes deles, enxergava a vida, a minha vida, como um conjunto de coisas desorganizadas, entre as quais, eu costumava perambular. Hoje, quando comparo o atual contexto com o existente há um ano, vejo o antigo como se fosse uma estante, onde todos os itens estavam precisamente organizados.

Neste tempo que passou, mudaram visões, metas, relações, ações. Enfim... tudo atirado no chão, vorazmente. Tudo à minha frente, no solo... todos os artigos quebrados, inutilizados.
Este espaço sofre com isso, porque dentre as coisas que se foram, certamente, perdi aquela que me levava a escrever com a frequência necessária para mantê-lo. Talvez, num outro momento, eu consiga reencontrá-la ou substitui-la, mas por hora, apenas tenho fatos, e estes, também estão danificados e espalhados pelo chão.

Neste período, vi nitidamente, pessoas perderem os seus significados. Por algumas, lutei(ainda que de forma vã), já outras, se afastaram sem grande alarde.
Penso que enquanto tentava resgatar as coisas que o imponderável tratou de quebrar e expor, consegui, tardiamente, perceber a passagem do tempo e seus efeitos.

Vejam! levei 20 anos para ter uma completa noção do que é isso. Talvez leve mais 20 para que eu aprenda a lidar com isso, outros 20, para que eu passe a agir de forma eficaz, 20 outros, para que eu comece a notar resultados... sei, também, que não tenho tanto tempo. Sei que hoje, sou "um pouco menos" do que antes e ainda assim é incerto que um dia, eu me acostume a não contar com aquilo que está em cacos.

Por hora, talvez o que me reste, seja varrer os cacos para um canto da casa, reerguer a estante e observar a areia que cai, numa ampulheta... que caiu no último ano, que cai há 20... que cai, lembrando-me de coisas que um dia estiveram dispostas sobre uma estante.






segunda-feira, 14 de maio de 2012

O tempo não pára!

Antes que me critiquem por estar falando de futebol neste espaço, argumentarei de maneira "sensata": Este não é um espaço democrático(risos). Enfim, dispam-se de preconceitos e aproveitem o texto.



13 de maio de 2012 - Após 11 anos, o E. C. Bahia voltava a conquistar um título, mas não sem antes ter travado um duelo ferrenho contra o seu arquirrival, o Esporte Clube Vitória. Foram mais de 90 minutos de um jogo em que a técnica viu-se sublimada pela vontade. Ainda assim, a partida foi de bom nível, emocionante até o fim. O empate não se deu por acaso, dentro deste confronto, não
havia espaço para um perdedor, ambos, cada um ao seu modo, fez-se valer. 

Ao vencedor, a coroa de louros, ao perdedor, a coroa de espinhos; ainda que não tenha perdido sequer uma partida para o seu maior rival, a irregularidade que esteve presente na campanha rubro-negra neste certame foi determinante para a perda do título, visto, que esta atribuiu ao tricolor a vantagem que lhe garantiu a conquista.

Rei morto, rei posto. O tempo não para, e não podemos desperdiçá-lo lamentando o passado por um longo período(Talvez, eu possa, mas torcedores e jogadores de futebol não o podem) o campeão mereceu o título? talvez, não sou o homem mais indicado para atribuir merecimento em tal situação, mas, é inegável que o Bahia foi mais regular do que o seu oponente e a regularidade é uma importante qualidade, não é mesmo?

Para encerrar os comentários sobre a partida de ontem, tenho um pouco a falar sobre o time que torço.
Conseguiu ser herói e vilão em diversos momentos dentro de uma única atuação, não muito diferente do que fez ao longo do certame.
Abre o placar, perde um importante jogador, o goleiro falha... aí vem o empate. O time perde confiança, o goleiro falha... olha a virada!
Segundo tempo, pênalti e gol, logo em seguida, defesa espetacular de Douglas, pouco depois, a virada. 
Neto Baiano cansa, sai... o time perde a referência, tanto motivacional quanto física e, o ataque rubro-negro já não conseguia ser tão agudo contra a pesada defesa adversária... Pedro Ken já não tinha fôlego para armar, Geovanni e Tartá se escondiam, a bola era lançada ao ataque e 
rechaçada, voltava ao campo defensivo leonino... sempre com perigo.

Gol do Bahia, o derradeiro. O empate que manter-se-ia até o final do jogo, viu-se ameaçado por investidas de ambos os times.
O Vitória, extenuado, não foi auxiliado pelo acaso, que parece tê-lo prejudicado com a contusão de Romário, e com as três gritantes falhas de Douglas;
ainda mais, não foi ajudado pela sua forma física... a ausência de Neto no quarto final do jogo foi negativamente determinante e o time que ainda buscava
melhor sorte investia calcado puramente na vontade, pois, lhe "faltavam pernas" e organização. O empate veio e o campeonato foi perdido, mas a cabeça deve seguir erguida.

Existem lacunas no elenco? sim! A derrota foi dolorosa? Sim! A gozação adversária é irritante? Certamente que sim!
Mas, e daí? quarta-feira é logo ali, já há um Coritiba a nossa espera, uma copa... do... BRASIL! O título é provável? não!
Mas é possível, não há porque não tentar. No sábado, começa a série B, começa a luta pelo acesso, o real objetivo do leão nesta temporada.

Ainda há muito a se fazer, ainda há um caminho longo a se percorrer e, o futuro é inexorável. O tempo, este não pára para quem quer que seja. Então, é hora de decidir entre "chorar as pitangas", ou por o pé na estrada. A primeira batalha foi perdida, mas foi lutada com brio até os últimos instantes.
Se houver a mesma vontade nas próximas, os objetivos tornam-se mais palpáveis. Que siga a vontade, que siga a tenacidade, que siga a caminhada, pois, o tempo não pára.


Foi inevitável associar esta canção ao texto.

domingo, 13 de maio de 2012

Eu gosto é do estrago...


Abaixo, estão as versões da canção que motivou o texto.

O velho e o moço - Los Hermanos

O velho e o moço - Maglore


Por acaso, esta canção chegou aos meus ouvidos
e, fiquei imediatamente encantado com a incontestável beleza existente tanto na letra quanto na melodia
desta música.

Primeiramente, ouvi a fabulosa versão feita pelos baianos da banda
Maglore, depois, não consegui conter a curiosidade e busquei a versão original
que conseguiu me encantar tanto quanto a primeira.

Passei alguns dias ouvindo esta música como se ela fosse um incansável
e interminável mantra o qual eu deveria escutar. Em toda a sua extensão
um trecho em especial destacou-se: "Eu gosto é do estrago".

Uma frase comum, convenhamos
mas, seja pelo arranjo, pela maneira que é cantada ou por influência mística
tornou-se marcante e símbolo maior da nova velha obra que tanto me encantava.

Como não me dou por satisfeito em deixar lacunas, ou preenchê-las com fáceis 
explicações, internalizei a questão e danei-me a pensar...
"Eu gosto é do estrago"... será que sou desses? (risos) logo eu, tão contido...(mais risos)
Muito divaguei, e como é evidente que a canção tem como tema principal o tempo, pus-me a pensar sobre este.
Tomando o tempo como aquele que demarca a passagem de nossas vidas, percebi que muito melhor que relacionar a 
música com o tempo cronológico, era relacioná-la com a própria vida e então, o fiz.

Volto a citar a frase e a associo à vida e, posteriormente, à minha fascinação por ela...
-Ei, mas se associo a vida à canção, ainda assim não entendo o porquê do fascínio por esta frase... não gosto do estrago do tempo... da vida...

Porém, aprofundo as minhas divagações e finalmente chego a algo(hipotéticamente) plausível: O que é a vida, senão o estrago?
O gasto? O desperdício?

Não gosto disso, bem, como não aprecio A VIDA COMO ELA É... ininteligível, quase sempre equivocada e de futuro assustador.

E há tanta contrariedade, pois, há muito já não ouço o que convém, e mantenho próximo tudo o que posso, já não há gasto...
e, eu tanto quis poder voltar, RE-FA-ZER!!!
Por fim, volto ao início, volto ao cerne: eu, que não gosto do estrago, porquê propago isto aos quatro cantos?

Acho que finalmente entendi. Dele, não gosto, mas assim como quase tudo, aceito, por não ter outra opção...
se o estrago é a vida; é ele quem se impõe, com suas regras, com sua força e complacente, o aceito, por falta de alternativa,
mas, se é a ele que canto a plenos pulmões, talvez, esteja eu, cantando a vida; com admiração, tanto à canção, quanto à existência,
por conseguir enxergar-lhes a beleza; ainda, que em ambas, tão pouco se adeque a mim.

P.S.: Alguns trechos da música foram utilizados na estrutura do texto.

sábado, 31 de março de 2012

O que sinto por ti

Neste momento ocioso, me pego pensando em ti
Tentando compreender o que queres de mim
Verificando os meus atributos, quais lhe serão úteis?
Quais poderão nos servir?

Seria esta uma paixão?
Das mais febris e avassaladoras?
Creio que não, pois meu sentimento não é passageiro
É duradouro, é verdadeiro

Ou talvez, seja passageiro, como o tempo e os sonhos
Como é a própria vida, e tudo o que ela comporta...
Como somos... nós

Mas a quem me refiro, senão a única entidade que me acompanha
Da tenra infância à atual insanidade?
Que sempre atende aos meus apelos?
Que parece sempre ter me correspondido...
Que me oferece alguma calma para lidar com esta vida
Tão sombria quanto é o breu

Esta é a música
Que parece me querer como amigo, e não como amante
Mas dela não guardo mágoas
Pois, esta me abriga nestes difíceis dias...
Nestas singelas melodias, ainda encontro alguma proteção

Por tanto tempo presente, companheira
Do sentido que havia na vida, restou apenas a sua frágil beleza
E, é por isso que penso que a amo
Penso que dela não virá o abandono
Penso que ela me ama também

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Morrendo pelas causas alheias, morrendo pelas causas erradas

Salvador encontra-se em uma guerra. O cidadão soteropolitano sabe bem a que me refiro. Desde que foi deflagrada a greve por parte dos policiais militares de muitas das cidades da Bahia, e, em especial, os de Salvador, o pouco de ordem e paz que se presenciava por aqui, perdeu-se por completo.

No momento em que escrevo este texto, mais de cem pessoas já foram assassinadas em aproximadamente oito dias, isso, é o que é mostrado nas estatísticas oficiais, mas não sabemos se o número real de vítimas é ainda maior.

A onda de ataques, assaltos e assassinatos, originou-se no dia 02 de Fevereiro. Coincidentemente(ou não) mesmo dia de um importante festejo local. A greve, há muito foi considerada ilegal, e uma decisão judicial fez este fato notório, porém, os grevistas pareceram desdenhar da justiça e do estado, e nem mesmo acenaram com a possibilidade do cumprimento desta ORDEM JUDICIAL.

Muito fala-se na participação de militares em atos de vandalismo, que vão do roubo de viaturas, ao tombamento de veículos de transporte público em meio a ruas, passando até mesmo pela suspeita de alguns dos homicídios cometidos nos últimos dias.

Prefiro não me pronunciar neste sentido, mesmo tendo uma opinião formada quanto a esta situação. Mas, vai que algum militar lê este texto e decide tirar satisfações comigo? Eu não tenho armas de fogo para realizar a minha proteção, e, todos sabem que truculência no trato com os civis, é algo que não falta por meio de muitos agentes desta corporação, vide este caso: http://g1.globo.com/bahia/noticia/2012/01/cozinheira-perde-visao-ao-ser-agredida-em-show-no-pelourinho.html.

Também não posso deixar de falar sobre a solicitação de anistia para os participantes do movimento. Quais são os torpes crimes cometidos, que despertam o temor do julgamento e da condenação? Pelo pouco que resta de dignidade a este povo, não a anistia.

Apesar de não ter os meios necessários para atribuir-lhes a autoria dos atos de vandalismo, ainda assim, irei atribuir de maneira pertinente, a este movimento ILEGAL grande parte da responsabilidade pelas mortes e prejuízos materiais sofridos por muitos dos cidadãos soteropolitanos. Ora veja, o conjunto de leis que nos rege, impede a estes senhores de realizarem este tipo de manifestação, mas, ainda assim, eles passam por cima desta resolução. Uma decisão judicial invalida a greve, e, consequentemente, os obriga a retornar as suas normais atividades. O que acontece? Ouvidos de mercador para a nossa justiça, e, também para a nossa população, que abandonada pelos agentes da segurança pública, vê-se a mercê de meliantes de toda espécie.

Credito as mortes recentes à negligência desta classe que simplesmente virou às costas a aqueles que deveria defender. A indiferença dos mesmos, selou dezenas de destinos de modo irremediável. E, ao fim de tudo isto, o que receberão os vitimados pelos ataques neste período? E, o que receberão os familiares dos assassinados nesta onda de violência? Quem irá devolver a população todo o tempo perdido, as tarefas não feitas, a auto-estima, enfim, a vida normal, que parece ter perdido-se a aproximadamente uma semana?

Obviamente, a resposta para as questões “1” e “2”, são dois enormes “nadas”, e a resposta para a terceira questão, é: “ninguém”. Então, quem se beneficia desta terrível celeuma, senão a corporação que advoga em causa própria, e, no final desta greve, quando sairmos dos escombros da cidade que conhecíamos, eles estarão gozando de um considerável aumento salarial, enquanto, muitas famílias estarão chorando suas perdas. Mas, espero que não esqueçam que o sangue que hoje lava as ruas soteropolitanas, foi , em parte, derramado sem cerimonias, pelos senhores policiais, direta, ou indiretamente.

Esta é a guerra cívil soteropolitana. Não objetivamos derrubar um ditador, não visamos a desocupação de nossas terras por parte de estrangeiros, a motivação de toda esta balbúrdia nem mesmo é para um bem comum. A motivação existente é exclusiva, e, porque não dizer, egoísta. UMA classe, decide mudar o destino de uma cidade, ou mais, de um estado, pelos aumentos dos SEUS SALÁRIOS. Só isso, e que morram quantos forem necessários para que esta solicitação seja atendida. Somos meros peões neste tabuleiro, todos, sofrendo com a possibilidade de morrer por uma causa que não é nossa.

Para finalizar, cito a palavra “massacre”, largamente utilizada pelos insurgentes. Esta era uma alusão a possível invasão da Assembleia Legislativa, que por eles foi invadida(mais um ato ilegal). Façam-me rir. Massacre? Massacre foi o que presenciou-se nas ruas da cidade. O que ocorreria lá, seria um confronto entre duas forças armadas, em que os reclamantes teriam uma excelente oportunidade de mostrar que a sua causa valia as suas vidas. Mas, não. Houve muito falatório, a utilização de suas famílias como proteção, e nenhuma gota de sangue foi derramada por lá. Claro, que isto não ocorreria. Pois, nesta "revolução" tosca, o único sangue derramado, é o de inocentes. É o de quem nada tem a ver com esta estupidez.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Estupraram a minha consciência

O ano de 2012 inicia-se de modo tosco. Veio a tona um episódio irrelevante, mas que em algum momento super dimensionou-se e se tornou num dos assuntos mais comentados do pais.

O hipotético estupro ocorrido num reality show nacional as conversas nas ruas, preenche as páginas na internet, espalha-se pelos noticiários.

E, ao constatar a importância dada a este reality show e a suposta violência sexual(que a meu ver, sequer ocorreu), sinto que é a minha consciência que está a ser estuprada.

Sim, ela tem sido cruelmente violentada pelos meus semelhantes, que ruborizam-se diante da possibilidade do estupro, mas seguem atentos as cenas seguintes, bebendo da fonte de sua aversão.

Tem sido violada pela possibilidade da censura virtual, e pelo desinteresse com que tratam a isto os meus semelhantes. E, enquanto uma guerra é travada lá fora, e esta decidirá o futuro do mais importante meio de comunicação existente. Imprensa e meus congêneres, insistem em estuprara a minha consciência, com estupidez, desdém e parcialidade.

Ah, a imprensa. Verdade, imparcialidade, estes parecem estar se tornando termos esquecidos. Para a “Vênus platinada”, heróis anônimos são, na verdade, vilões, e nossos defensores nesta cyber batalha, não passam de indivíduos perigosos e desprezíveis.

Não esqueço; para esta emissora, somos todos contraventores. Pelo menos foi isso o que ela fez parecer, numa curta reportagem de qualidade dúbia.

A meu ver, o grupo “Anonymous” executa um grande trabalho no mundo virtual. Heróis que trabalham em sigilo, de modo tenaz, por afeição a causa(Espero não estar enganado).

Para a imprensa, torno a dizer: não passam de vilões, facínoras.

Por fim, assevera um proeminente jornalista: “Já fomos mais inteligentes”. Sim, de fato, já fomos. Porém, esta inteligência degenerou-se, com grande colaboração da imprensa, classe que este senhor integra.

E afirmo: uma curta frase de impacto não nos fará mais inteligentes. A meu ver, esta manifestação, pura e simples, o faz parecer mais arrogante e estúpido, nada mais.

Não é a singela piada de Luiza que me agride, mas a repercussão a ela dada, é, sim, ofensiva.

O pretenso estupro e sua popularidade, são culpa nossa, mas a incansável divulgação do fato é de responsabilidade da classe que conta com o perspicaz indivíduo capaz de julgar o nível de nossa inteligência.

Também é de responsabilidade desta classe a pouca ou nula atenção dada a temas de extrema importância, colaborando assim, para a alegada falta de inteligência.

Então, aqui de baixo já enxergo alguns tetos de vidro, e sinto ser cruelmente ferida por semelhantes e superiores, a minha consciência. Sabe-se lá, até quando.

Joy division - Love will tear us appart


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Poema em linha reta - Fernando Pessoa

Certa feita ouvi este poema, e de imediato identifiquei-me com o mesmo. Hoje, novamente o escutei e de pronto, percebi que deveria publicá-lo aqui, pela sua genialidade, e também porque sou um destes, que não conhece sequer uma pessoa que tenha "levado porrada".

Poema em linha reta - Fernando Pessoa

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Feliz ano velho!

Esta é a época dos festejos de final de ano. Ritos de passagem.
Para quem conseguiu sobreviver, ainda que a duras penas, o ingresso no ano seguinte é uma certeza de renovação.
Ano novo, vida nova. É o que diz a célebre frase. Mas, o que de fato se renova com a passagem de ano?
Dias antes, há a comemoração do Natal.
Alguns dizem que esta festa perdeu o seu real sentido. Outros mostram-se indiferentes.
Existem inúmeras possibilidades para a constituição do Natal como um importante festejo. Logo, não está errado o religioso que centraliza a sua atenção nesta data, fazendo dela um marco importante para os seus ritos.
Também não estão errados, o cético e(ou) o indiferente. Pois o primeiro está embasado em fatos que o levam a desacreditar da data. O segundo sequer liga para o que ocorre. Então, pouco lhe importa.
No fim das contas, assim como tudo a que estimamos, a valoração é individual.
Na relatividade das coisas, argumentos serão refutados ou aceitos, acontecidos serão pertinentes ou não, pessoas terão importância ou serão irrelevantes, de acordo com os nossos conceitos. E assim, cada um irá pautar a sua vida de acordo com o que acha correto.
Mais importante que isso: O Natal e o Réveillon são dois grandes marcos em nosso calendário.
Duas pausas de extrema importância .
O tempo, nada mais é, que uma maneira de sistematizar a vida; torná-la controlável. Fazer dela um grande compartimento, onde temos subdivisões. Segundos, minutos, horas, dias, meses, anos. E vamos preenchendo estes compartimentos com nossas obrigações naturais(nascer, crescer, reproduzir e morrer) e suas derivações, apesar de sabermos que a vida, não raramente, se esquece das etapas de nosso ciclo, e o encerra de maneira prematura e cruel.
O homem, por outro lado, ignora este fato, e prefere imergir em sua rotina. Uma vida sistemática é uma garantia de mansidão e cansaço. Estes são vitais para que nos livremos do fardo, que são as lacunas de nossa existência.
E qual vida não é minimamente sistemática, em meio a ditadura cronológica?
Como dito antes, os festejos citados são importantes pausas, pois marcam o encerramento de um ciclo(ano).
A primeira das datas, assim como qualquer feriado, é um momento destinado ao descanso e ao contentamento. Entretanto, mais do que isso, esta é uma data reservada a gratificação do bom e é também a época do perdão. (Hipoteticamente)
Neste momento, as pessoas devem se livrar de suas culpas e maus sentimentos.
Também devem refletir o ano que se extingue. Visando evitar que os seus erros se repitam no ano vindouro. É evidente que todo este ritual é muito mais teatral que real, e pouco do que é feito nele é levado a cabo. Porém, a importância dele é evidente, quando percebemos que se trata de um esforço geral para que acreditemos em nossa bondade, ainda que ela esteja distante da realidade.
E uma semana depois, quando estamos purgados pela ação do Natal, o ano se encerra, o ciclo se “acaba” e um novo ‘‘começa”.
Ainda que saibamos que a vida permanece igual, este é um momento reservado a uma “recarga de esperança”.
É onde devemos acreditar na sorte, e tentar atraí-la. É onde devemos nos alegrar, é onde devemos fazer promessas falsas e exprimir desejos vazios.
É lá, que fingiremos crer que o brilho presente nos fogos de artifício será o mesmo que iluminará as nossas vidas.
E desta forma, adentramos no ano novo. Que em verdade não difere do antigo, exceto por estarmos um pouco mais velhos. Mas ainda assim, esta é uma fantasia necessária, um marco fundamental. Uma das mentiras cativas que estamos acostumados a repetir a exaustão, tornando-as nossas próprias verdades. E deste modo, tentamos tornar a vida algo menos confuso, vazio e desagradável.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Internet - A tríade - Parte 3

Rumo agora para a terceira parte deste comentário que tem como tema principal a internet.
O subtema abordado desta vez, são as “redes sociais”.
Pois bem, estes meios virtuais de integração humana tem enorme importância no mundo atual. Há uma constante troca entre o virtual e o real, e não raro, o virtual incide e(ou) molda o real, bem como, o real também incide e molda o virtual.
A importância é tamanha, que cartas e até mesmo telefonemas(em tempos atuais), são preteridos pela utilização rápida e pouco onerosa de e-mails e mensagens instantâneas.
Há também, a clara mostra da agilidade que permeia o comportamento humano atual. Além, da também evidente lacuna existente em nossos laços afetivos.
O usuário de uma rede social quer se expor. Quer se comunicar, é claro. Mas, quer se expor.
Quer mostrar ao mundo quem ele é. O que faz, quais são os seus anseios, seus temores. Mais do que isso; tem uma esperança implícita de que irá encontrar alguém que goste do que ele é. Que realize seus anseios, que abrande os seus temores.
Quer expor seus enigmas, e, porque não, ser decifrado.
Seria uma espécie de mostragem de seus aspectos e experiências individuais, tal qual, a existente num diário; entretanto, este não é restrito. É coletivo, é um campo de vazão para uma de nossas necessidades mais primitivas: Encontrar semelhantes, pessoas que sejam de fato, nossos pares.
Porém, todo o espaço ali disponível nos impele a apenas fornecer informações, quase nunca a captar as alheias. O que nos deixa em uma condição de incompletude e isolamento que não difere muito da original.
É também um espaço onde todos amam, mas quase ninguém é amado. Este ” amor instantâneo” que se prepara em 3 minutos, sob algum fervor, e que desfaz-se em muito pouco tempo, é pré-existente. Ele é a base de nossas relações amorosas/sexuais.
Nas redes ele é apenas potencializado e mais facilmente viabilizado. Porém ele não é para todos, e dificilmente o “romântico frustrado” e o indivíduo pouco popular, tornar-se-ão os “pegadores insensíveis” e os indivíduos populares deste mundo paralelo, pois, assim como no mundo material, existem rótulos a nos separar.
E dificilmente eles serão transpostos, visto que toda sociedade tem o seu “sistema de castas”. E, esta sociedade virtual reproduz com grande fidelidade as divisões reais.
Sobre o ganho de importância destes grupos de comunicação, ainda tenho a dizer, que eles assumiram o papel do elo entre os indivíduos. E reputação, interação, proximidade e outros, estão cada vez mais sendo praticados, aferidos e atestados, ali. E, não me surpreenderei, se dentro em breve, formos muito mais vinculados ao “mundo paralelo”, que ao real. Em minha opinião, o salto até esta situação é bastante pequeno.
No mais, apenas quero dizer que nossas “teias sociais” virtuais se assemelham a um solo extremamente fértil, onde tudo o que plantamos, germina rapida e imensamente. Seja estupidez, ou brilhantismo.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Internet - A tríade - Parte 2

Este texto dá prosseguimento ao tema abordado na postagem anterior, porém, trata de uma outra vertente: “Os jogos em rede”.
Nesta seção, torna-se mais clara a existência daquilo que posso chamar de “mundo paralelo” virtual.
E nestes jogos, há, de fato, mundos que transcendem(e, porque não dizer, suplantam) o mundo que habitamos e também as suas regras.
Nos simuladores da vida real, você pode escolher a sua aparência física, e ao contrário da realidade, não será obrigado a manter-se num corpo que o descontenta e envergonha.
Todas as tarefas são sistemáticas. Tudo o que está presente nesta “dimensão” é absolutamente ponderável(até mesmo o futuro). Dentro das condições apropriadas, não existirão interrupções abruptas, nem quaisquer tipos de imprevistos.
A obtenção de recursos não está vinculada a atividades enfadonhas e que nos levam grandes e preciosas porções de tempo. E, ate mesmo as relações afetivas são sistemáticas, assim, reduzindo consideravelmente os riscos de insucessos.
Já nos “rpg’s”, a fantasia faz-se presente no seu maior expoente. Desde os seus cenários, que podem variar de vilarejos medievais, até cidades futurísticas, até os seus personagens, sempre imponentes e fortes, dotados de poderes espetaculares.
Mundos de batalhas colossais, onde só por meio destas, vem a morte. E ainda assim, ela não é definitiva, é, em verdade, uma mera pausa.
Os louros aos vitoriosos, novas chances aos derrotados.
No mundo virtual, as oportunidades jamais serão escassas, as derrotas jamais serão definitivas, o tempo jamais será empecilho, de forma alguma, haverá dor.
Não obstante, viver em meio as as suas maiores fantasias torna-se algo plenamente plausível, é possível ter o que se quer, de fato. Os objetivos são tangíveis, a continuidade é ilimitada.
Porém, há ai uma grande falha: O mundo virtual é absolutamente vinculado ao real, e a nossa existência no primeiro é intimamente ligada a nossa existência no segundo(Esta muito mais complexa e incerta).
Este me parece ser o grande problema existente nos “mundos” descritos anteriormente. Eles são refúgios temporários, não permanentes. São paliativos, não cura.
O que me parece ser lamentável, pois o mundo elaborado pelos humanos, me parece ser muito mais completo e justo, que a existência que nos foi destinada.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Internet - A tríade - Parte 1

Por ser um assunto com o qual tenho certa intimidade, decidi abordar o tema “internet”, e achei apropriado dividi-lo em três sub temas.
Assim sendo, teremos: A internet como ferramenta de busca, meio de comunicação e outros, os jogos em rede e as redes sociais e a sua utilização.
Bem, é sabido por todos, que a internet foi uma invenção de crucial importância na progressão histórica da humanidade. Me atrevo a dizer que este, talvez tenha sido um dos dez maiores adventos já criados, e que o mundo não seria como hoje conhecemos, caso ela não existisse.
A internet “reinventou” o mundo, o aproximou, reduziu distâncias, mas ao mesmo tempo, o tornou mais amplo, um infinito explorável. Talvez, uma espécie de novo universo.
Universo, este, de respostas imediatas. É tudo muito veloz, o que acabou por dar vazão as também imediatas demandas humanas, cada vez maiores, cada vez mais inflexíveis.
Não condeno a esta pressa, até porque, é de conhecimento geral a minha opinião a respeito de planos e adiamentos. Porém, o ímpeto da humanidade está voltado para o lado errado, já que este visa a obtenção, visa a aquisição, quase sempre do que é material, ou do que é socialmente bem conceituado, o que me parece um erro, quando me lembro das poucas certezas que podemos ter quanto à vida.
O acesso instantâneo à informação foi talvez, o maior ganho mundial com a chegada da internet. E mais que isso, a descentralização do poder da criação da notícia, permitiu que qualquer um possa tornar-se um formador de opinião.
Entretanto, isso faz com que o conhecimento torne-se dúbio, e nem sempre fiável.
Em síntese; ganhos de velocidade no atendimento em repartições, comunicação instantânea, acesso quase irrestrito informação e outros, são alguns benefícios deste invento.
Ampla humilhação pública, divulgação desenfreada de conteúdo impróprio, conhecimento irreal. Estas são algumas das desvantagens da ferramenta.
Eu, enxergo a ela como uma bela faca de dois gumes. Extremamente útil, mas que se mal administrada e mal policiada, pode cortar-nos profundamente na carne. 
Até a próxima, com a continuação do texto.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Amsterdam - Coldplay

Uma das mais belas músicas que conheço, que ainda traz consigo uma enorme carga de relevância pessoal(Para mim).

A saudade dos tempos "Pokémon"

Dezembro de 2011. Sou 20 anos mais velho do que era quando cheguei a este lugar, porém, às vezes, sinto como se eu fosse muito mais jovem do que me impõe a idade cronológica.
Em outros momentos, sinto-me como um ancião, como alguém que carrega o peso que apenas pode ser adquirido em um século, quiçá, em mais tempo.
Recordo-me do passado, dos tempos em que eram outras as demandas, verdades e limitações, lembro-me da fantasia, da ingenuidade, das facilidades, da beleza, lembro-me dos tempos em que assistia Pokémon.
Da minha tenra infância, da vida mais fácil e mais compreensível. Ela parecia perfeita, até porquê, nela cabiam todas as minhas elucubrações, todos os meus quereres, o mundo era um lugar melhor por que ela não era apenas o mundo, de fato, ele era o mundo que eu formulava, e, lá, tudo era possível, até mesmo o impossível, e nunca seria prudente discordar disso.
Neste tempo, a escola era agradável, os amigos eram verdadeiros, as pretensões eram mínimas, e eu era eu, nada mais, e isso já era o suficiente. O mundo era completo, pois havia família, fantásticos desenhos animados os quais eu acompanhava com fervor, e de certa forma, acabava sendo parte integrante dos mesmos. O mundo era pequeno, e por isso, inteligível, controlável, e tudo era mais belo, quase tudo era fantasia, mas ainda assim, tudo era perfeitamente real.
Era o tempo do início da exibição do desenho “Pokémon” na televisão aberta brasileira, e ele foi emblemático, um dos marcos mais relevantes da minha vida. Raros eram os meus contemporâneos que não queriam ser “mestres”, que não queriam sair por ai, capturando os seus monstros de bolso, que não queriam estar num mundo maravilhoso.
Este tempo progrediu, tornou-se o tempo de outros desenhos, outros feitos, tornou-se o tempo de outros mundos.
E hoje, olho com tristeza para o passado. Olho do alto de uma existência cansada, de quereres imediatos, da incerteza do amanhã, de distâncias ampliadas, de identidades dilaceradas, de sonhos devastados, de vidas destruídas, de tristeza, de inconstância, de uma loucura iminente, talvez inevitável, como é tudo aquilo que nos é mais nocivo.
Hoje, gostaria de poder fazer do passado um local tangível, irrestrito, o qual pudesse visitar quando quisesse e lá permanecesse o quanto desejasse.
Hoje sinto saudade dos “tempos Pokémon”, porque estes eram muito melhores que os de hoje. E enquanto a vida de outrora era completa, a de hoje parece um arremedo, parece ter desmoronado ao longo do tempo, sem que eu pudesse fazer algo, sem que eu pudesse voltar ao início.
Talvez este seja somente o inconformismo de homem mal resolvido, de um cidadão frustrado que decidiu cuspir fel sobre algumas verdades, sobre a bela vida, sobre o maravilhoso mudo que possuímos Mas, me parece apenas, que aqui estou expondo alguns fatos, impressões particulares. Estou exibindo a saudade de um tempo que se foi contra a minha vontade, estou retratando a situação de alguém que perdeu-se junto com o tempo que se passou e parece apenas encontrar alento em meio ao seu saudosismo e a sua melancolia. Estou relembrando a beleza de um mundo distante, um fabuloso mundo... Que se foi.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Lover, you should've come over - Jeff Buckley

Ao som dos bandolins

O tempo passa e a vida nos leva. Nos remete aos instintos e em tempos tão vorazes, as palavras mantém significados na falta de sentidos. O imediatismo inerente a atualidade nos leva a viver sem pensar, a falar, sem saber o que de fato é dito. Cada vez mais, creio que o ser humano não sabe lidar com a vida. Torna essencial o que é material e cumulativo, assim, desdenhando da incerteza do amanhã, enquanto, tudo o que é estritamente primordial é tratado como secundário . Desta forma, destina-se absoluta atenção a edificação de “impérios” os quais jamais usufruiremos em sua totalidade.
Este comportamento não é diferente quando falamos sobre: “este veneno que você chama amor”. De profundo, fez-se razo e distante, muito distante de nós.
No amor romântico atual, pouco resta de nobreza e veracidade. Seus caminhos e itinerário foram distorcidos e, destes resta apenas uma imagem longínqua.
Me parece evidente que algumas nas nossas atitudes atribuídas à afetividade são meramente manifestações de instintos primitivos, porém, nos é custoso dar conta disso, já que a admissão deste fato seria o inicio da assemelhação da raça humana aos animais irracionais, seria(ainda que parcialmente) o decréscimo de nossa condição hierárquica em relação a outras classes de seres vivos.
Parece-me também, que o amor romântico tornou-se um apego a rótulos, e não aos seus possuidores. Em meio a demandas urgentes, a maioria já não se dispõe a investigar o subjetivo(inerente ao amor real).
Estes, buscam majoritariamente o que é objetivo e tangível, e de fato, preencherá os seus anseios.
Logo, ama-se a quem é fisicamente atraente, a quem é financeiramente bem provido, a quem mente bem...
Sim, neste jogo de bravatas, os melhores mentirosos são amplamente gratificados.
Creio ainda, que muitos sustentam implicitamente o desejo de serem verdadeiramente amados, entretanto, este é um objetivo inviável no mundo atual, todo ele regido pelas regras que definimos.
Parece restar-nos, somente nos deixar levar por este amor leviano, onde mente conscientemente quem fala e, aceita de forma complacente, quem ouve, pois, na falta de algo melhor, sobra-nos uma embalagem vazia, onde não há sentimento, e palavras levianas, mentiras confortáveis tornam-se o que mais próximo chegamos da verdade almejada.
E, para os renegados, fica o recado: andar a margem da maioria, em sentido inverso, não é demeritoso, pois, em uma sociedade que dança uma canção torta, executada por bandolins desafinados, os presentes no salão julgam-se amados, sem de fato sê-lo.

Love, hate, love - Alice in Chains

Conto de fadas moderno

Após um longo distanciamento, decidi regressar a este espaço fazendo uma explanação sobre o que pode ser chamado de: “Conto de fadas moderno”.
Para ser mais específico, irei falar sobre aqueles a quem chamo de “neo príncipes encantados”.
Por mais incrível que possa parecer, as estórias podem servir como agentes educativos aos humanos que se encontram na mais tenra idade. Muitos dos seus futuros alvos lhes são mostrados ali de maneira aparentemente sutil e ingênua.
Para as garotas, as princesas eram/são “perfeitos” modelos. Belas, simpáticas, exemplos de caráter e conduta.
Para os homens, resta ser como os príncipes. Destemidos, belos, igualmente polidos e sempre dispostos a resgatar a donzela em apuros.
Os contos ainda mostram uma noção clara e nociva de um amor romântico indestrutível e incondicional, apenas atingível nas fábulas.
O tempo passa, o cenário medieval cede espaço as selvas de pedra e o príncipe encantado retorna a forma de sapo, porém ainda coroado.
Tal qual cristal quebrado, seu conceito fragmenta-se e o príncipe encantado (Macho alfa) transforma-se em três seres distintos.
Um deles pode ser encontrado nas chamadas “baladas”, ele traz do original a beleza, as vezes a riqueza, porém quase nunca a polidez. Quase sempre é uma criatura obtusa. Entretanto, ciente de que seu físico o basta, vive o agora, aproveitando ao máximo o que lhe deu a natureza, ou o que construíram os anabolizantes e (ou) as cirurgias estéticas. Este exemplar costuma unir-se às “princesas” em laços fugazes mas prazerosos, visto que ambos sabem que é tudo o que podem oferecer. (E em nenhum momento lhes desaprovo)
Há o príncipe que “herda” do seu modelo principal a riqueza. Este foi agraciado com a possibilidade da compra do amor alheio e esta é uma estratégia bastante eficaz, visto que eles substituem o que supostamente moveria o mundo(amor) por aquilo que move o mundo de fato(dinheiro). Este, talvez seja o príncipe ideal: esteio financeiro, possível beleza adjacente, possível gentileza(Ainda que condicional).
E o terceiro é o meu exemplo favorito. Ele é o “Vida Loka”. Isso mesmo, esta espécie desprezível de conduta condenável está repleta de “príncipes”.
Eles tem status, impõem respeito em suas comunidades e tem riqueza, ainda que relativa e obtida de maneira reprovável. Tem a beleza que se não está presente em seus corpos, está presente em suas roupas e penteados(vistos por avaliadores degenerados). E eles até mesmo substituíram os tradicionais cavalos brancos por suas potentes motocicletas e (ou) por cavalos mal criados e mal cuidados que usam para a viabilizar objetivos escusos(Mas que quase nunca são brancos).
Estes são os três exemplos mais notáveis do “neo príncipe encantado”, todos eles sapos coroados, sobre vitórias –régias as quais, eles, em conjunto com as potenciais princesas, tornaram os seus vistosos castelos.
E resta uma observação: as três figuras destacadas estão sempre em evidência em seus meios sociais, são de fato os “machos-alfa” do mundo animal.
Então, meu caro leitor, se você não está presente em alguma destas categorias, lamento, mas você sempre será “sapo”, enfeitiçado e sem jamais encontrar alguém para quebrar-lhe o encanto com um beijo.